15/04- 2005 WORLDS: UM EVENTO HISTÓRICO PARA O PARAPENTE MUNDIAL

O Campeonato Mundial de Parapente aconteceu de 14 a 27 de Março na cidade mineira de Governador Valadares. Esta é a principal competição do esporte no planeta e dessa vez o Brasil mostrou que é primeiro mundo quando se trata de organização de eventos
A nona edição do Campeonato Mundial de Parapente desde o início tinha tudo pra se tornar um evento histórico no Mundo do Parapente. Pra começar, foi a primeira vez que a competição saiu do tradicional eixo Europa-Japão, regiões onde concentra-se a maioria dos pilotos do Mundo, e veio para o Brasil, mais precisamente ao Pico da Ibituruna, em Governador Valadares, Minas Gerais. A mudança parece ter agradado, já que a competição teve número recorde de países inscritos. Ao todo, foram 47 diferentes nações, representadas por 150 pilotos, entre eles 32 mulheres, outro recorde para o evento.

Tudo parecia perfeito, menos um pequeno detalhe: as condições do tempo. Todo o leste mineiro era castigado pelas persistentes chuvas do verão. O rio Doce, que corta a cidade em direção ao mar, no estado do Espírito Santo, invadia a área de pouso oficial no centro da cidade. A antiga Feira da Paz, como ainda é conhecido o pouso oficial, estava mais adequada para uma competição de canoagem do que de vôo livre. Difícil imaginar que em pouco mais de uma semana toda a estrutura do escritório central do campeonato seria montada ali, em pleno leito do rio.

Mas o mau tempo serviu apenas para aumentar as expectativas e deixar todos com sede de vôo. Exatamente uma semana antes do início da competição a chuva parou e os pilotos conseguiram voar pela primeira vez para testar a região e os novos equipamentos.

AS NOVAS MÁQUINAS

Os principais pilotos do mundo estavam por aqui ansiosos pra testar as novas máquinas lançadas para este mundial. A GIN veio com o Boomerang 4 e muita confiança pra levar o título desta vez. No último mundial, em Portugal, a fábrica da coréia teve nove pilotos entre os dez primeiros, mas o título ficou nas mãos do suíço Alex Hoffer com seu Targa, da alemã UP.
Para a competição no Brasil, a então campeã mundial veio com o Targa 2 e o respaldo de ter faturado também o título do Paragliding World Cup do ano passado, com o alemão Oliver Rossel.
A suíça Advance, que venceu o campeonato Europeu do ano passado com o também suíço Christian Maurer, chegou com os novos protótipos do Omega e seu outro piloto de teste, Steve Cox.
Do leste europeu, a equipe Tcheca, vice-campeã européia, veio com novidades das suas três principais fábricas: a Gradient, com os novos protos do Avax; A MacPara, com o Magus e a então campeã mundial e do PWC2004, Petra Krausova; E a nova Axis Para, que estreou no Mundial de Portugal, agora apresentava o Mercury.
Por falar em estréia, tivemos também a primeira participação de uma fábrica brasileira em Mundiais: a Sol Paragliders, com o Dynamic AR.
Não bastando tudo isso, o inglês Bruce Goldsmith, da Airwave, chegou a Valadares com seu Magic FR e venceu a primeira prova. A briga seria boa nos próximos dias.

A COMPETIÇÃO

Sem chuvas, chão cada vez mais seco e condição melhor: é hora da competição. A rotina é quase sempre a mesma. As 08h30min acontece a reunião com os team leaders e são passadas as informações meteorológicas, resultados do dia anterior e discutidos possíveis problemas que tenham surgido. Enquanto isso, os pilotos sobem com vans oferecidas pela organização. Algumas equipes, como a suiça, italiana, alemã, japonesa e francesa têm carros próprios com motorista e em alguns casos até cozinheira, massagista e médico. Estrutura de federações que têm mais de 20mil associados.

Já na rampa, a comissão técnica, formada pelo italiano Jimmy Pacher, o francês Patric Berod e Frank Brown, analisa a condição do tempo e definem possíveis trajetos para o dia. Junto com o diretor de provas Hélio Pires, o Batata, e os oficiais da Federação Aeronáutica Internacional, Denis Pagen e Fernando Amaral, eles definem qual será o trajeto. Antes de ser oficializada, a prova ainda é analisada por uma comissão de segurança, composta pelo espanhol Mario Arqué, o americano Josh Con e o brasileiro Márcio Pinto, junto com o diretor de segurança Bruno Menescal. Se o trajeto não representa nenhum risco, como voar próximo a CBs ou regiões de difícil acesso caso ocorra um acidente, a prova então é passada para os pilotos no briefing geral.

Tudo definido para a primeira prova. Céu azul com algumas nuvens formando sobre o Pico da Ibituruna, vento nordeste fraco e muita expectativa para a abertura da janela. No entanto, a maioria dos pilotos permanecia com os equipamentos nas mochilas e os team leaders numa grande discussão. O motivo: um protesto iniciado pela equipe da Bélgica ganhou força e nenhum piloto iria decolar se não houvesse um helicóptero à disposição da equipe de segurança para auxiliar em possíveis acidentes. O helicóptero havia, mas estava em Belo Horizonte, a pelo menos uma hora de vôo de Valadares, e não totalmente à disposição do campeonato. Depois de muita discussão e ajuda de políticos locais, a organização conseguiu com o governo do estado e a Polícia Militar um helicóptero para ficar em Valadares durante toda a competição. Finalmente, começaria então a nona edição do Campeonato Mundial de Parapente.

O INÍCIO DA DISPUTA

Líderados pelos team leaders André Fleury e Flávio Pinheiro, os brasileiros estavam representados pelo capixaba Frank Brown, nossa grande esperança do título inédito, o gaúcho Luciano Tcacenco, o Bafinho, o mineiro Rafael Carvalho, o Preguiça, o carioca Márcio Pinto e nossa menina na competição, a também carioca Kamira Rodrigues. Todos eles já conheciam muito bem o trajeto da primeira disputa: 55,8 quilômetros, passando por Divino Traíra, Sobrália e gol no trevo dos Porquinhos, depois de Engenheiro Caldas. "É uma prova tão conhecida da gente que até atrapalha", disse o pentacampeão brasileiro, Frank Brown. Pelo visto atrapalhou mesmo. Frank não conseguiu completar o trajeto e de quebra levou com ele muitos dos que o seguiam nesse dia. O italiano Jimmy Pacher, o alemão Norman Lausch, o francês Patrick Berod, entre outros favoritos ao título pousaram junto com Frank e viram suas chances passarem alto, nas velas do inglês Bruce Goldsmith, o vencedor da prova, e daqueles que seriam os protagonistas desta disputa, o austríaco Christian Tamegger e o suiço Steve Cox. Luciano Tcacenco mostrou que valeu a pena seu esforço nas etapas do Paragliding World Cup do ano passado, não se intimidou, e foi o único brasileiro no gol, chegando em 14º. "Dei uma mancada no começo, fiquei mal posicionado, mas depois peguei uma condição melhor que o resto do pessoal e me recuperei a partir do segundo pilão", diz o piloto gaúcho que participa pela quinta vez de um mundial.

A RECUPERAÇÃO DE FRANK E A CONSISTENCIA DE BAFINHO

A partir da segunda prova, Frank inicia sua recuperação. "A partir de agora, quanto pior pra todo mundo, melhor para os brasileiros", diz. Arriscando mais, ele chega em terceiro no segundo dia e vence a terceira disputa numa chegada emocionante com o alemão Torsten Siegel. " Foi um vôo incrível porque estava muito fraco e difícil de achar a rota certa e o melhor caminho. Eu e o Frank voamos juntos os últimos oito quilômetros e então decidimos cruzar a faixa do gol juntos. Foi muito legal", disse o piloto alemão. Nesse dia, apenas cinco pilotos completaram todo o trajeto, entre eles Christian Tamegger. "Fiquei cerca de uma hora na mesma térmica, cheguei aos 1300 metros e então consegui contornar o último pilão e chegar ao gol. Estou muito feliz", conta o austríaco, que passou a liderar a competição.

Nos dias seguintes, a condição do tempo ajudou ainda mais e o Mundial de 2005 teve mais um recorde quebrado, o de provas realizadas. Ao todo foram dez disputas, com uma prova cancelada e um dia de descanso, apesar da excelente condição. No masculino, o austríaco Christian Tamegger seguia muito constante e liderava a maior parte da competição, à frente dos suíços Steve Cox e Stefan Wyss e do brasileiro Luciano Tcacenco, que manteve-se todo o tempo entre os dez primeiros, chegando à quarta colocação faltando apenas três dias para o fim da competição.

MAIS UM FATO HISTÓRICO

No feminino, a briga estava entre a dinamarquesa Louise Crandal, a alemã Ewa Cierslewicz e a suíça Elisabeth Rauchenberger, mas quem roubou a cena foi a tcheca Petra Krausova. Depois de ir mal nas primeiras provas e praticamente dar adeus às chances de título, Petra protagonizou mais um fato histórico nesta competição. Ela foi a primeira mulher a vencer uma prova em mundiais. Na oitava disputa, a atual campeã do PWC deixou todo mundo pra trás e foi a primeira a chegar ao gol no pouso oficial de Governador Valadares. "Estava forçando o tempo todo porque não tenho mais nada a perder, mas o pelotão vinha sempre junto. Estava forçando talvez um pouco demais, mas finalmente venci", conta a campeã mundial de 2004. Junto com ela, chegou seu compatriota Tomas Brauner. "Todos estavam juntos e no final resolvemos arriscar um pouco mais. Foi uma boa idéia porque pegamos uma forte térmica e chegamos bem à frente dos outros", comenta Tomas, que ajudou seu país a voltar à disputa por uma vaga no pódio.

A DECISÃO

No último dia, o céu amanheceu encoberto e a previsão era de que não haveria vôo. Tamegger já estava com a mão na taça, Steve Cox conformado com o vice-campeonato e Luciano Tcacenco satisfeito com a quinta colocação. O Brasil já ocupava a sexta posição na classificação por países, que tinha como líder a Suíça, seguida pela Alemanha, Áustria e República Tcheca. Todos subiram para o pico da Ibituruna sem acreditar que seria possível realizar a última prova naquele dia. Mas mais uma vez parecia que tudo estava planejado para ser o melhor campeonato de todos os tempos. A condição melhorou ao longo do dia e a comissão técnica optou por um trajeto pela rota tradicional, seguindo a BR116 em direção a Caratinga. No entanto, alguns pontos de chuva fez com que a abertura da janela fosse atrasada e depois de alguns minutos, o próprio trajeto foi mudado. Agora, os pilotos voariam no sentido oposto, em direção a São Vítor, com um último pilão na rampa e gol na Feira da Paz.

A condição difícil do dia fez com que os líderes pensassem em estratégias para manterem as posições. "Vou voar um pouco defensivo hoje. Não arriscar muito, tentar conseguir uma boa altitude para o planeio final e chegar ao gol. Essa é a meta", disse o austríaco Christian Tamegger, que liderava a classificação com certa vantagem. Já Steve Cox tinha que não só garantir sua segunda posição como torcer por um erro do adversário. "Vou ficar calmo, me manter alto e chegar ao gol. Se Deus quiser, o Tamegger vai cometer um erro um dia. Nem que seja neste último", disse o suíço antes de decolar para a prova decisiva.

Justamente no último dia o austríaco Christian Tamegger cometeu o erro esperado pelo suiço. Voou apenas 16, dos 54 quilômetros de prova, e ficou com a 92ª posição no dia. O resultado o fez cair para a segunda colocação geral e a equipe austríaca para a quarta, atrás de Suiça, Alemanha e República Tcheca respectivamente. Steve Cox, que conseguiu manter-se no ar por mais tempo e atingir os 27,1 quilômetros, conquistou o título mundial nesta prova que nenhum piloto completou. "Estava quase impossível pegar o Tamegger. Ele estava muito bem, voando mais agressivo que eu e ainda assim chegando ao gol. Pensei até o fim que minha estratégia não ia funcionar. Minha única chance era ele cometer um erro. E aconteceu. Na última prova ele errou e eu o passei. Incrível", contou o campeão mundial. Junto com Tamegger, pousou a esperança brasileira de medalha até então. Luciano Tcacenco voou apenas 16,1 quilômetros e caiu para a 11ª posição no geral. "Estava bem em todas as provas. Na última fui mal, cai, mas ainda fiquei entre os melhores do mundo. Está bom", comenta o brasileiro. Frank Brown foi melhor e acabou a competição em nono. "É uma competição muito longa, com muitas provas e a condição um pouco fraca dificultou ainda mais. É como se tivesse chovido durante uma prova inteira de Fórmula1, então, o campeonato ficou ainda mais difícil e trabalhoso. Eu fui mal no primeiro dia, mas depois consegui me recuperar. O resultado final até que foi bom", completa Frank, mais uma vez o brasileiro melhor colocado no Mundial. No feminino, a dinamarquesa Louise Crandal garantiu mais um título mundial, seguida pela alemã Ewa Cierslewicz e pela suiça Elisabeth Rauchenberger. Os outros brasileiros não foram tão bem. Rafael Carvalho terminou a competição com a 58º colocação e Márcio Pinto ficou em 97ª. Entre as mulheres, Kamira Rodrigues ficou com a 20ª posição.

E como se não bastasse todos os recordes e fatos históricos desta competição, o encerramento da festa contou com a presença ilustre da Esquadrilha da Fumaça, que fechou com chave de ouro a melhor competição até hoje realizada no Parapente Mundial: o 9º Campeonato Mundial.

Autor:  Caio Salles
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