Dia 12 de Agosto, terça-feira, eles tiveram o primeiro sinal de que o sonho de pousar em cima do topo do Mont Blanc era possível. A condição estava muito boa e uma nuvem for sobre o topo. Um dos pilotos da equipe voou por cima da montanha. Então, todos se planejaram para completar o desafio no dia seguinte, passando pelo lado italiano do Mont Blanc e pousando no pico da maior montanha da Europa. Quatro pilotos decolaram de Planpraz, em Chamonix, outro de Samoens e outros dois de Megeve. Todos na mesma frequência de rádio e com o mesmo objetivo.
Decolaram de Chamonix David Casartelli, Yvan Boullen, Jean-Paul Bonfanti e Alain Finet. De Samoens, Pierre Denambride, e de Megeve, Fred Escriba e Yves Goueslain. Todos com muita experiência no vôo dos Alpes e grande conhecimento da aerologia na região.
Logo no começo do vôo já ficaram impressionados de como a base das nuvens estavam altas. Próximo a "Aiguillete des Houches" os pilotos que decolaram de Chamonix e Samoens se encontraram. Os dois que optaram por Megeve tiveram que esperar até as 14h, quando as condições melhoraram para aquela decolagem. A base da nuvem estava a 4300mts.
Para completar esta tentativa, todos tiveram que aderir às regras da área restrita do Mont Blanc. Nos meses de Julho e Agosto é estritamente proibido o vôo de parapente e asa-delta de "Aiguille d'Argentiere" a "Aiguille du Tricot", no lado francês do maciço do Mont Blanc. O único caminho para completar este vôo legalmente em Agosto seria voar pelo lado oeste do maciço, através da Itália. No entanto, nesta rota é preciso voar numa região inóspita, sem possibilidade de retorno. Todos estavam bem conscientes das possíveis consequências e preparados para aceitar o risco.
A condição estava melhor do que o normal no caminho para o Mont Blanc, com fortes térmicas, mas sem muita turbulência. As 12h30min um "cumulus" já formava-se sobre o topo da montanha, a cerca de 5000 metros de altitude.
Chegando perto de de "Aiguille du Tricot" uma boa térmica os levou aos 4200metros de altitude, já próximos a "Aiguille de Bionannassay". Ali, a aventura realmente começou. Cruzando a "Col de Miage", uma profunda passagem entre "Miage e Bionnassay", entraram numa área totalmente sem pouso. As únicas alternativas eram as pedras ou o gelo. Realmente o coração do Mont Blanc. Atmosfera selvagem e todos muito concentrados.
Finalmente acharam uma boa térmica aos pés do "Rochers du Mont-Blanc", a 3900metros de altitude, sobre o refúgio "Qiuntetto Sella". Térmica constante entre 4 e 6 m/s. Uma grande "cloud street" formou-se, a cerca de 5200 metros. Logo, perceberam que estavam com uma boa margem de segurança antes do pôr do sol. Chegaram à mágica altitude dos 5200 metros.
Vento praticamente parado e David Casartelli foi o primeiro a pousar com seu Boomerang. Rapidamente, avisou pelo rádio que não havia nenhum perigo aparente. Pierre chegou dois minutos depois e aí foi a vez de Yvan. Jean Paul
hesitou. Ele estava com frio e cansado por causa da altitude e decidiu não pousar no topo. Yvan pegou o rádio e falou: "Jean Paul, você faz o que quiser, mas se você não pousar aqui, vai se arrepender para o resto da vida". Jean Paul pensou um pouco e então fez um orelhão e veio. Finalemente, seus pés tocaram a neve Seguro e com seus amigos no topo do Mont Blanc.
Alain, que teve que esperar um novo ciclo próximo a "Rochers du Mont-Blanc", chegou poucos momentos depois. Yves e Fred também completaram o desafio, mas chegaram ao topo achando uma térmica mais longe, em direção ao sul, no "Rocher Rouges du Brouillard" e no "Pic Baretti".
Depois de duas horas mágicas ao pôr do sol, todos decolaram em condições seguras e voltaram de onde eles saíram. Aquela noite, todos os pilotos locais encontraram-se em Chamonix para festejar.
O vôo somente foi realizado por causa da grande experiência dos pilotos e pelos bons conhecimentos das condições nas altas montanhas. Outra coisa importante foi que todos respeitaram as regras de vôo. Este vôo é o resultado de um longo e intensivo trabalho e anos de tentativas e observações. E também só foi possível devido às excelentes condições que ocorreram nos Alpes durante o verão de 2003.
Autor: Caio Salles